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Conselho Federal
de Psicologia XIV Plenário
Diretoria do CFP
Humberto Cota Verona
Presidente
Ana Maria Pereira Lopes
Vice-presidente
Clara Goldman Ribemboim
Secretária
André Isnard Leonardi Tesoureiro
Conselheiros Efetivos
Iolete Ribeiro da Silva
Maria Christina Barbosa Veras
Alexandra Ayach Anache
Elisa Zaneratto Rosa
Deise Maria do Nascimento
Conselheiros Suplentes
Maria da Graça M. Gonçalves
Andréa dos Santos Nascimento
Aparecida Rosângela Silveira
Henrique J.L. Ferreira Rodrigues
Jureuda Duarte Guerra
Anice Holanda Nunes Maia
Cynthia R. Corrêa Araújo Ciarallo
Acácia Aparecida A dos Santos
Marcos Ratinecas
Psicólogos Convidados
Aluízio Lopes de Brito
Roseli Goffman
Maria Luiza Moura Oliveira |
Grupo de Trabalho do
Ano da Educação
Conselho Federal
de Psicologia
Alexandra Ayach Anache
Clara Goldman Ribemboim
Iolete Ribeiro da Silva
Conselho Regional
de Psicologia – 1ª
Região: Cristina Martins Siqueira
Sérgio Fernandes Senna Pires
Conselho Regional
de Psicologia – 3ª
Região: Carlos César Barros
Lygia de Sousa Viégas
Maria Izabel Ribeiro
Conselho Regional
de Psicologia – 4ª
Região: Dinacarla Gonzaga Piermatei
Conselho Regional
de Psicologia – 5ª
Região: Francisca de Assis Rocha Alves
Conselho Regional
de Psicologia – 6ª
Região: Beatriz Belluzzo Brando Cunha
Conselho Regional
de Psicologia – 9ª
Região: Alba Lucínia da S. Magalhães de
Sensi
Márcia Freire Ribeiro
Conselho Regional
de Psicologia – 10ª
Região: Dorotéa Albuquerque de Cristo
Sônia Eli Cabral Rodrigues
Conselho Regional
de Psicologia – 11ª
Região: Fernanda Freita Santos
Georgia Albuquerque de Toledo Pinto
Conselho Regional
de Psicologia – 13ª
Região: Maria das Graças Teles Martins
Apoio:
Coordenadoria Geral do CFP
Yvone Magalhães Duarte
Coordenadoria Técnica
do CFP
Polyana Marra Soares
Queli Cristina do Couto Araújo |
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Sumário
Apresentação
Eixo temático 01: Psicologia, Políticas
Públicas Intersetoriais e Educação Inclusiva
Cristina Maria Carvalho Delou
Eixo temático 02: Políticas Educacionais:
legislação, formação profissional e participação democrática
Marilene Proença Rebello de Souza e Marisa Lopes da Rocha
Eixo Temático 3: Psicologia em Instituições
Escolares e Educacionais
Raquel Guzzo
Eixo Temático 4: Psicologia no Ensino
Médio
Ângela Fátima Soligo e Roberta Gurgel Azzi
Apresentação
A psicologia está presente na educação de diversas
formas, seja como disciplina ou como conteúdo de disciplinas, sendo inspiradora
de propostas de formação humana, bem como área de aplicação. Há, portanto,
saberes e práticas psicológicas que têm sido relevantes para a formação
dos seres humanos mediante as suas necessidades que emergem nos diferentes
espaços educacionais.
Diante disso, o Sistema Conselhos de Psicologia
decidiu, na Assembléia das Políticas, da Administração e das Finanças
(APAF) de dezembro de 2007, que o ano de 2008 será dedicado à Educação.
Essa escolha surgiu da necessidade de enfatizar a importante contribuição
da Psicologia, enquanto ciência e profissão, na luta pela consolidação
de uma educação para todos, respaldada nos princípios do compromisso social,
dos direitos humanos e do respeito à diversidade enquanto fundamento para
uma efetiva inclusão social.
A inserção dos psicólogos em diferentes espaços
educacionais, a sua participação na construção das Políticas Públicas
de Educação e de outras políticas intersetoriais, bem como a organização
da categoria para atuar em movimentos de controle social, deve estar contemplada
por esses princípios.
O aprofundamento das discussões sobre a política
educacional brasileira visa qualificar o psicólogo, técnica e politicamente,
para melhor compreender a complexidade do sistema educacional atual, visando
o aperfeiçoamento da atuação profissional na área da educação na perspectiva
da inclusão social.
Diante da demanda, é imprescindível debatermos
os trabalhos desenvolvidos por psicólogos em escolas ou em outras instituições
de educação que abordem a temática da educação inclusiva e sua interface
com políticas públicas, em especial as de educação, saúde e assistência
social.
Entendemos como educação inclusiva as práticas
que fortaleçam a luta por uma educação que cumpra seu caráter público,
universal e de qualidade para todos, que tenha como referência aqueles
que têm sido reiteradamente excluídos dos sistemas de ensino - negros,
meninas, homossexuais, pessoas com deficiência, índios, populações em
situação de rua, adolescentes autores de ato infracional, crianças e jovens
com dificuldades no processo de escolarização vinculadas ou não a causas
orgânicas, superdotados.
Enfatizamos também a necessidade de inserções e
participações de psicólogos no âmbito das políticas públicas em espaços
consultivos e deliberativos tais como Fóruns, Redes Sociais e Conselhos;
junto ao Legislativo, acompanhando e propondo ações junto a deputados
e vereadores, visando, também por meio de Projetos de Lei, contribuir
para a democracia na Educação. A presença do psicólogo nesse campo deve
resguardar a dimensão do compromisso social e da qualificação técnica
e política para o exercício profissional.
É imperioso ainda lembrar a existência de práticas
desenvolvidas por psicólogos em instituições escolares e educacionais
(por exemplo, abrigos, centros sócio-educativos, instituições comunitárias),
nos seus diversos contextos formais (educação infantil, ensino fundamental,
médio, superior, ensino profissionalizante e educação continuada) ou informais.
A atuação dos psicólogos nesses espaços junto aos alunos e suas famílias,
educadores e demais profissionais ligados à educação contribui para que
a escola ou instituição educacional seja um espaço democrático de acesso
ao saber, culturalmente instituído e de produção de novos saberes. Aborda-se
a inserção da psicologia atravessada pelo diálogo, por intervenções multiprofissionais,
pela promoção do desenvolvimento e da aprendizagem, pela inclusão social
de crianças, jovens e adultos à sociedade da qual fazem parte e pelo respeito
aos Direitos Humanos.
Além disso, é importante registrar as experiências
de professores de Psicologia focalizadas em novas propostas curriculares,
projetos ou ações institucionais comprometidas com a democratização das
relações escolares e do Ensino. Ratificamos a sua importância ao oferecer
para os estudantes fundamentos que lhes permitam compreender as diferentes
dimensões da subjetividade e os processos de constituição do sujeito em
uma sociedade, ampliando e consolidando assim, uma educação humanizada
e com compromisso social.
Para a concretização do Ano da Educação, o Sistema
Conselhos de Psicologia promoverá Seminários Regionais e Nacional, com
a finalidade de se construir espaços de discussões coletivas entre psicólogos
e demais profissionais que atuam na educação e em outros setores da sociedade.
Para subsidiar as discussões que serão realizadas, foram produzidos quatro
textos geradores que contemplam os conteúdos dos eixos temáticos definidos
como norteadores do debate: 1) Psicologia, Políticas Públicas Intersetoriais
e Educação Inclusiva; 2) Políticas Educacionais: legislação, formação
profissional e participação democrática; 3) Psicologia e Instituições
Escolares e Educacionais e 4) Psicologia no Ensino Médio. Os textos apresentados
neste documento foram elaborados por profissionais especialistas nos diferentes
temas e seus conteúdos têm por objetivo fomentar os debates no âmbito
regional visando contribuir para o processo de construção de referências
técnicas e políticas sobre a atuação do(a) psicólogo(a) no contexto escolar/educacional.
Humberto Verona
Presidente do Conselho Federal de Psicologia
Ano da Educação no
Sistema Conselhos de Psicologia
Eixo temático 01:
Psicologia, Políticas Públicas Intersetoriais e Educação Inclusiva
Serão debatidos temas
desenvolvidos por psicólogos, em escolas ou em outras instituições de
educação, que abordem a temática da educação inclusiva e sua interface
com políticas públicas, em especial as de educação, saúde e assistência
social. Por educação Inclusiva entendemos como práticas que fortaleçam
a luta por uma educação que cumpra o seu caráter público, universal e
de qualidade para todos, que tenha como referências aqueles que têm sido
excluídos dos sistemas de ensino.
EIXO 1 – TEXTO BASE:
Psicologia, Políticas Públicas Intersetoriais e Educação
Inclusiva
Cristina Maria Carvalho Delou(1)
Reafirma-se que:
[...] a importante contribuição
da Psicologia,
enquanto ciência e profissão, na luta pela
consolidação de uma educação para todos,
respaldada nos princípios do compromisso
social, dos direitos humanos e do respeito à
diversidade enquanto fundamento para uma
efetiva inclusão social (CFP, 2008).
1. Psicóloga, Doutora
em Educação, Professora associada I da Faculdade de Educação
da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Constata-se:
[...] a inserção dos
psicólogos [e das psicólogas]
em diferentes espaços educacionais, a sua
participação na construção das Políticas
Públicas
de Educação e de outras políticas intersetoriais,
bem como a organização da categoria para
atuar em movimentos de controle social” (CFP,
2008).
Nossa luta tem sido pela inclusão de todos,
embora, ainda não esteja plenamente consolidada a presença
de psicólogos e de psicólogas nos diferentes setores de
ensino, saúde e assistência social na sociedade brasileira.
Assim, é justo que, no ano de 2008, dedicado às questões
da Educação, voltemos nossos esforços para a construção
de:
espaços de discussões
coletivas entre psicólogos
e demais profissionais que atuam na Educação
e em setores da sociedade, objetivando, a partir
desses seminários, a construção e divulgação
de
referências técnicas e políticas para a atuação
do psicólogo no campo escolar/educacional. O
aprofundamento das discussões sobre a política
educacional brasileira visa qualificar o psicólogo,
técnica e politicamente, para melhor
compreender a complexidade do sistema
educacional atual, visando o aperfeiçoamento
da atuação profissional (CFP, 2008).
Historicamente, a educação inclusiva
chegou ao Brasil com o compromisso de oferta de “Educação
para Todos”, assinado em 17 Jomtien, na Tailândia (UNESCO,
1990), durante o primeiro ano do governo Collor de Melo (1990-1992). Anos
turbulentos pelas importantes questões econômicas decorrentes
do confisco das poupanças do povo, veio o impeachment do Presidente
da República, levando o vice à Presidência. Quando,
no início da década de 90, a política financeira
do Banco Mundial assinalava possibilidades para a inclusão de alunos
com uma diversidade maior na escola regular, o Brasil extinguiu o órgão
responsável pela Educação Especial. Segundo Matos:
[...] pela reforma do Ministério
da Educação em
1990. As atribuições relativas à Educação
Especial foram transferidas para a Secretaria
Nacional de Educação Básica – SENEB, criada
com amplas competências. Em 1992, uma
reorganização ministerial possibilitou a recriação
da Secretaria de Educação Especial – SEESP,
vinculada ao Ministério da Educação, no qual
permanece até hoje (MATOS, 2003, p. 7).
Dez anos depois, o INEP – Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais (BRASIL, 2000) fez o Balanço
da Implementação dos Compromissos de Jomtien. Neste contexto
é possível perceber o universo das políticas públicas
implementadas:
Programa de Garantia de Renda Mínima, Educação de
Qualidade para Todos, Programa Acorda Brasil, Aprendizagem, Ensino Superior,
Combate ao Analfabetismo, Educação de Jovens e Adultos.
E os alunos com Necessidades Educacionais Especiais(2)?
Por que não foram incluídos nessas políticas?
2. A expressão Necessidades
Educacionais Especiais surgiu na tentativa de diminuir os estigmas que
outras expressões carregavam em si mesmas para referir-se aos alunos
com deficiência, transtornos do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.
[...] reconhecendo a necessidade
e urgência
do providenciamento de educação para as crianças,
jovens e adultos com necessidades educacionais
especiais dentro do sistema regular de ensino
(UNESCO, 1994, p. 9).
Assim, reendossando a Estrutura de Ação em Educação
Especial como meio para se atingir a educação inclusiva. O novo compromisso
foi firmado por meio da “Declaração de Salamanca sobre Princípios, Política
e Prática em Educação Especial” (UNESCO, 1994).
Desde então, o Brasil vem se organizando para cumprir esse importante
acordo internacional, e, mais do que isso, para garantir os direitos de
cidadãos historicamente excluídos. A Declaração de Salamanca é um marco
na definição dos alunos que têm direito à escolarização de qualidade como
qualquer cidadão. São as:
crianças com deficiência e crianças
bem dotadas;
crianças que vivem nas ruas e que trabalham;
crianças de populações distantes ou nômades;
crianças de minorias lingüísticas, étnicas ou culturais
e crianças de outros grupos ou zonas desfavorecidos
ou marginalizados. (UNESCO, 1994, pp. 17-18).
Isso significa que a escola deve receber alunos
“independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais,
lingüísticas ou outras” (UNESCO, 1994, p. 17). Nesse contexto, a expressão
Necessidades Educacionais Especiais “refere-se a todas as crianças e jovens
cujas necessidades decorrem de sua capacidade ou de suas dificuldades
de aprendizagem” (UNESCO, 1994, p. 18).
Mais recentemente, no início do ano 2008, a Secretaria de Educação Especial
apresentou ao Ministro da Educação o documento elaborado por um Grupo
de Trabalho, para apresentar a Política Nacional de Educação Especial
na Perspectiva da Educação Inclusiva(3), [...] que acompanha
os avanços do conhecimento e das lutas sociais, visando constituir políticas
públicas promotoras de uma educação de qualidade para todos os alunos
(BRASIL, 2008).
O documento define o “alunado da inclusão” como sendo aqueles que apresentam
deficiência, transtorno do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.
Eles devem ser matriculados na rede regular de ensino e receber apoio
em salas de recursos multifuncionais por meio de professores capacitados
e/ou especializados. Prevê o trabalho com alunos em parceria com a escola,
a família e a comunidade, onde estão os parceiros intersetoriais (saúde,
trabalho, assistência social, jurídico, entre outros), as universidades
e os centros de pesquisa, produtores de conhecimento científico. Nos referenciais
bibliográficos da nova Política encontra-se o rol dos documentos mais
importantes, que fundamentam a Educação Especial na perspectiva da Educação
Inclusiva, no Brasil.
Assim, é importante ressaltar que, passados dezoito
anos de Jomtien, quatorze anos de Salamanca e doze anos da nova Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), ainda encontram-se:
3. Disponível no site http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf
1- Práticas pedagógicas integradoras em concomitância
às novas práticas inclusivas (OMOTE, 2004; GLAT & FERREIRA, 2003; STAINBACK
& STAINBACK, 1998, apud, NUNES, 2008);
2- Questões diversas apontadas pelas pesquisas
sobre inclusão (ROMSKI & SEVCKI, 1998; SALEND & DUHANEY, 1999; KOCHHAR
ET AL., 2000; FISHER & MEYER, 2002; VOLKMAR ET AL., 2005; STAUB & PECK,
1995; CARNEIRO, 1999; SALEND, 2001; FORE ET AL. 2002; GLAT & NOGUEIRA,
2003; VOLKMAR ET AL., 2005 (apud. NUNES, 2008).
As principais questões apontadas nas pesquisas foram:
• Adaptação Escolar (GLAT & FERREIRA, 2003; CUCCOVIA
& ALMEIDA, 2003; apud. NUNES, 2008);
• Acessibilidade e Material Didático (GLAT & FERREIRA, 2003; PELOSI, &
NUNES, 2008; NUNES & NUNES SOBRINHO, 2008; apud. NUNES, 2008);
• Capacitação Profissional (GLAT & FERREIRA, 2003; FORE ET AL., 2002;
CARNEIRO, 1999; PELOSI, & NUNES, 2008; apud. NUNES, 2008);
• Orientação (GLAT & FERREIRA, 2003; FORE ET AL., 2002; apud. NUNES, 2008);
• Superlotação (GLAT & FERREIRA, 2003; FORE ET AL., 2002; apud. NUNES,
2008);
• Estresse do Professor (LIPP, 2004; FORE ET AL., 2002; apud. NUNES, 2008);
Entre 9 a10 % dos professores de Educação Especial
abandonam a escola e 6% da educação regular por burnout (MCKNAB, 1995;
apud. NUNES, 2008).
Professores precisam refletir sobre sua prática
com ajuda, tomar 21 consciência de suas crenças e valores sobre aprendizagem,
tornaremse pesquisadores de suas ações, aprimorar o ensino de sua sala,
compreender que cada aluno é diferente, mesmo que com tipos de Necessidades
Educacionais Especiais iguais.
Os princípios da educação inclusiva precisam ser
estudados, pesquisados amplamente, em níveis de formação profissional
(graduação), aperfeiçoamento e pós-graduação (especialização, mestrado
e doutorado, acadêmico ou profissional, presencial ou a distância). Novos
fomentos precisam ser criados para que as pesquisas nessa área se ampliem.
Este é um novo conhecimento, na cultura cristalizada
das salas de aulas com muitos alunos, homogeneizados pelos baixos resultados
escolares, numa sociedade que resiste em reconhecer os direitos e a diversidade
dos seres humanos, que possui professores desobrigados da realização do
curso superior para a formação em magistério nas séries iniciais, onde
chegam os alunos com deficiência, transtorno de desenvolvimento e altas
habilidades/superdotação e que necessitam de professores com a melhor
formação possível para favorecer o desenvolvimento de estruturas superiores
do pensamento de modo a torná-los cidadãos produtivos e escolarizados
com qualidade. Como os direitos que a LDB garante serão cumpridos?
Todos os direitos estão baseados nos seguintes diplomas
legais:
• Constituição Federal (1988);
• Lei nº 7.853/89 - CORDE - Apoio às pessoas portadoras de deficiência;
• Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente;
• Lei nº 10.098/94 - Acessibilidade;
• Lei n° 8.899/94 - Passe Livre;
• Lei nº 10.845/04 - Programa de Complementação ao Atendimento Educacional
Especializado às Pessoas Portadoras de Deficiência; 22
• Lei nº 9.424/96 - FUNDEF;
• Lei nº 9.394/96 - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional;
• Lei nº 10.216/01 - Direitos e proteção às pessoas acometidas de transtorno
mental;
• Lei nº 10.436/02 - Libras, o Plano Nacional de Educação.
Decretos:
• Decreto nº 5.626/05 - Regulamenta a Lei nº 10.436
que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS;
• Decreto nº 2.208/97 - Regulamenta Lei nº 9.394 que estabelece as diretrizes
e bases da educação nacional;
• Decreto nº 3.298/99 - Regulamenta a Lei nº 7.853/89;
• Decreto nº 914/93 - Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora
de Deficiência;
• Decreto nº 2.264/97 - Regulamenta a Lei nº 9.424/96;
• Decreto nº 3.076/99 - Cria o CONADE;
• Decreto nº 3.691/00 - Regulamenta a Lei nº 8.899/96;
• Decreto nº 3.952/01 - Conselho Nacional de Combate à Discriminação;
• Decreto nº 5.296/04 - Regulamenta as Leis n° 10.048 e 10.098 com ênfase
na Promoção de Acessibilidade).
Portarias:
• Portaria nº 976/06 - Critérios de acessibilidade
os eventos do MEC;
• Portaria nº 1.793/94 - Formação de docentes;
• Portaria nº 3.284/03 - Ensino Superior;
• Portaria nº 319/99 - Comissão Brasileira do Braille;
• Portaria nº 554/00 - Regulamenta Comissão Brasileira do Braille;
• Portaria nº 008/01 - Estágios;
Resoluções:
• Resolução CNE/CEB nº 1 - Estágio; 23
• Resolução CNE/CP nº 1/02 - Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Formação de Professores;
• Resolução CNE/CEB nº 2/01 - Diretrizes Nacionais para a Educação Especial
na Educação Básica;
• Resolução CNE/CP nº 2/02 - Institui a duração e a carga horária de cursos;
• Resolução nº 02/81 - Prazo de conclusão do curso de graduação;
• Resolução nº 05/87 - Altera a redação do Art. 1º da Resolução nº 2/81)
Pareceres(4):
• Parecer nº 17/01.
Grande parte da legislação está apoiada em documentos internacionais,
tais como: Carta para o Terceiro Milênio; Declaração de Salamanca; Conferência
Internacional do Trabalho; Convenção da Guatemala; Declaração dos Direitos
das Pessoas Deficientes; Declaração Internacional de Montreal sobre Inclusão.
A LDB garante aos educandos com necessidades especiais:
• atendimento educacional especializado gratuito,
preferencialmente na rede regular de ensino (BRASIL, 1996, Art. 4º, III);
• ao acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação
artística, segundo as capacidades de cada um (BRASIL, 1996, Art. 4º, V);
• a escola poderá se organizar de diferentes formas para atender ao interesse
do processo de aprendizagem (BRASIL, 1996, Art. 23);
• a escola deve definir o nível de escolaridade do aluno e classificálo
para efeitos de matrícula por meio de avaliação escolar que defina o grau
de desenvolvimento e sua experiência (BRASIL, 1996, Art. 24, II, c);
• a escola pode organizar turmas com séries distintas (BRASIL, 1996, Art.
24, IV);
• o avanço escolar deverá ser efetivado mediante verificação do aprendizado
(BRASIL, 1996, Art. 24, V, c).
4. Embora o Parecer não seja considerado
“diploma legal”, trata-se do documento que apresenta toda a fundamentação
legal e a lógica argumentativa para a elaboração da Resolução CNE/CEB
Nº 02/2001.
Na LDB, a Educação Especial foi definida como modalidade
de educação escolar para alunos com Necessidades Educacionais Especiais
(BRASIL, 1996, Art. 58), e que:
• haverá serviços de apoio especializados, na escola
regular (BRASIL, 1996, Art. 58, Parag 1º);
• poderá haver classe, escola ou serviço especializados (BRASIL, 1996,
Art. 58, Parag 2º);
• a oferta de Educação Especial começa na faixa etária de zero a seis
anos, durante a educação infantil (BRASIL, 1996, Art. 58, Parag 3º);
• os sistemas de ensino assegurarão: currículos, métodos, recursos educativos
e organizações específicas (BRASIL, 1996, Art. 59, I);
• terminalidade específica e aceleração de estudos(5)
(BRASIL, 1996, Art. 59, II);
• professores especializados (BRASIL, 1996, Art. 59, III);
• educação especial para o trabalho (BRASIL, 1996, Art. 59, IV);
• benefícios dos programas sociais suplementares (BRASIL, 1996, Art. 59,
V).
Até aqui, a nossa legislação contempla apenas os
alunos com deficiência, transtorno de desenvolvimento e altas habilidades/
superdotação. Contudo, o Conselho Federal de Psicologia entende por Educação
Inclusiva:
5. Já regulamentados em diversos Estados,
Municípios e no Distrito Federal.
Por educação inclusiva entendemos
práticas
que fortaleçam a luta por uma educação que
cumpra seu caráter público, universal e de
qualidade para todos, que tenha como referência
aqueles que têm sido reiteradamente excluídos
dos sistemas de ensino – negros, meninas,
homossexuais, pessoas com deficiência,
índios, populações em situação de rua,
adolescentes autores de ato infracional,
crianças e jovens com dificuldades no
processo de escolarização vinculados ou
não a causas orgânicas, superdotados (CFP/2008).
Tal conceito é histórico e encontra-se alinhado
com a legislação mais recente para a realização da educação escolar na
perspectiva da educação inclusiva e mostra como ainda é preciso trabalhar
pela a inclusão de todos, verdadeiramente todos.
Contudo, a mudança é muito drástica e a escola
reagiu de diferentes formas. Alunos estigmatizados pelas práticas de medicalização
passaram a ser matriculados e excluídos dentro da escola. Alunos que optaram
pela escola inclusiva decidiram retornar para a escola especial, mesmo
que dois anos mais atrasado do que a série que iria cursar, reconhecendo
perdas escolares pela aprovação automática, entre outros. A inclusão prevê
a participação da família e da comunidade, mas as parcerias ainda não
estão bem definidas. Assim como o estabelecimento de novos parceiros intersetoriais
para o atendimento das demandas de saúde, trabalho, assistência social,
jurídico, entre outros, superando equívocos, desconhecimento, preconceitos,
mitos, que prejudicam os que não têm acesso natural à escolaridade de
qualidade.
Psicólogos e Psicólogas, é hora de construirmos
e divulgarmos referências técnicas e políticas para a nossa atuação no
campo escolar/educacional. Nosso aperfeiçoamento profissional depende
de compreendermos a complexidade do sistema educacional brasileiro para
atuarmos em prol da inclusão social de todos.
Referenciais Bibliográficos:
BRASIL. Educação para todos: avaliação da década.
Brasília:
MEC/INEP, 2000.
--------- . Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva. Distrito Federal: MEC/SEESP, 2008.
--------- . Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394.
Distrito Federal: MEC/SEESP, 1996.
CFP. Carta 0019-08/DIR-CFP. Brasília, 2008.
MATOS, Simone Rocha. Educação, Cidadania e Exclusão à luz da
Educação Especial - Retrato da Teoria e da Vivência. RBC_
RevDez2003_Artigo_2.rtf.
NUNES, Débora Regina de Paula. Teoria, pesquisa e prática em
Educação: a formação do professor-pesquisador. Educação e
Pesquisa. v. 34, p. 1517-9702, 2008.
UNESCO. Declaração de Educação para Todos. Distrito Federal: MEC,
1990.
--------- . Declaração de Salamanca. Distrito Federal: MEC/SEESP,
1994.
GLAT, Rosana & FERREIRA, J. R. Reformas Educacionais pós-LDB: a
inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais no
contexto da municipalização. In: SOUZA, D. B. & FARIA, L. C. M.
Descentralização, municipalização financiamento da Educação no
Brasil pós-LDB. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
Eixo temático 02:
Políticas Educacionais: legislação, formação profissional e participação
democrática.
Trata de temas relacionados à inserções e às participações
de psicólogos no âmbito das políticas públicas em espaços consultivos
e deliberativos, tais como fóruns, redes sociais e conselhos, além do
Legislativo, acompanhando e propondo ações junto a deputados e vereadores,
visando, também por meios de projetos de lei, contribuir para uma democracia
participativa na educação.
A presença do psicólogo nesse campo deve resguardar a dimensão do compromisso
social e da qualificação técnica e política para o exercício profissional.
EIXO 2 – TEXTO BASE:
Políticas Educacionais: legislação, formação profissional e participação
democrática
Marilene Proença Rebello de Souza(6)
Marisa Lopes da Rocha(7)
Políticas Educacionais: desafios para a Psicologia
no campo da educação escolar.
A discussão referente à temática das políticas
públicas em educação é recente no campo da Psicologia Escolar e Educacional.
Podemos dizer que tal discussão remonta, no caso brasileiro, pouco mais
de 20 anos. Essa discussão só tem sido possível à medida que a Psicologia
e mais especificamente a Psicologia Escolar passaram a ser questionadas
nas suas bases epistemológicas e nas suas finalidades.
6. Doutora em Psicologia Escolar,
Professora do Departamento de Psicologia Aprendizagem, do Desenvolvimento
e da Personalidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
7. Doutora em Psicologia, Professora do Programa de Pós-Graduação
em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Tal discussão é introduzida no Brasil com a tese
de doutorado de Maria Helena Souza Patto(1984), defendida em 1981 e publicada
em livro com o título ”Psicologia e Ideologia: uma introdução crítica
à Psicologia Escolar”. Neste trabalho, Patto desnuda as principais filiações
teóricas das práticas psicológicas levadas a efeito na escola, os métodos
que os psicólogos vinham empregando, destacando o fato de as explicações
sobre as dificuldades escolares estarem centradas nas crianças e em suas
famílias, e a forma restrita como a Psicologia interpretava os fenômenos
escolares. A autora discute a serviço de que e de quem estariam a Psicologia
e a Psicologia Escolar, bem como a prática psicológica a ela vinculada
e conclui que a atuação profissional do psicólogo no campo da educação
avançava pouco a serviço da melhoria da qualidade da escola e dos benefícios
que esta escola deveria estar propiciando a todos, em especial, às crianças
oriundas das classes populares, ressaltando a presença da carência cultural
como a teoria que embasava as explicações para o mau desempenho escolar
das crianças das escolas públicas.
Iniciava-se, portanto, na trajetória da Psicologia
e da Psicologia Escolar, um conjunto de questionamentos a respeito:
a) do papel social da Psicologia enquanto Ciência e Profissão e da Psicologia
Escolar, enquanto campo de atuação do psicólogo e
b) dos pressupostos que norteavam a construção do conhecimento no campo
da Psicologia e da Psicologia Escolar, bem como suas finalidades em relação
à escola e àqueles que dela participam.
Este processo de discussão no interior da Psicologia
vai tomando corpo em um momento político nacional bastante propício para
a discussão teórico-metodológica em uma perspectiva emancipatória e enraizada
na realidade social. Pois, naquela mesma década, intensificaram-se os
movimentos sociais pela redemocratização do Estado brasileiro, tais como
movimentos de trabalhadores 28 metalúrgicos(8), movimentos
de professores(9), movimento pelas eleições diretas em
todos os níveis e cargos de representação política e rearticulação dos
partidos políticos. Além disso, no plano político, lutava-se por uma nova
Constituição que retirasse do cenário legislativo o que se denominava
de “entulho autoritário”, oriundo de mais de vinte anos de Ditadura Militar
no Brasil. A Constituição de 1988, denominada “Constituição Cidadã”(10),
abre caminhos para a institucionalização dos espaços democráticos, na
recuperação de direitos civis e sociais, centrada em dois princípios básicos:
a descentralização do poder do Estado e a participação social ampla da
sociedade civil nas decisões políticas. A ela seguem-se o Estatuto da
Criança e do Adolescente (1990), a Declaração de Educação para Todos (1990),
a Declaração de Salamanca (1994) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, em 1996, apenas para citar algumas das mais importantes iniciativas
institucionais de introduzir mudanças estruturais nas relações sociais
e civis no campo dos avanços dos direitos sociais e humanos. Portanto,
é no bojo da redemocratização do Estado, da descentralização do poder
para os Municípios e Estados, que a educação passa a ter autonomia para
planejar, implementar e gerir suas políticas educacionais (NENEVÉ & SOUZA,
2006).
A partir das discussões e críticas presentes no
campo da Psicologia, na sua relação com a educação escolar, a Psicologia
Escolar e Educacional inaugura uma década de pesquisas que se voltam para
o novo objeto de estudo da psicologia: o fracasso
escolar. Discussão iniciada ao final dos anos 80, o tema do fracasso
escolar passa a centralizar questões que envolvem os estudos sobre a escola,
tanto no campo da Psicologia, quanto no campo da Educação (PATTO, 1990;
ANGELUCCI, KALMUS, PAPARELLI & PATTO, 2004). Temas, tais como: vida diária
escolar, práticas educacionais, relações institucionais na escola, processos
de estigmatização escolares (COLLARES & MOYSÉS, 1998), diferenças de classe
social na escola e de gênero (NEVES & ATHAYDE, 1998), papel das avaliações
psicológicas para as crianças que apresentavam dificuldades de aprendizagem
(MACHADO, 1996), instrumentos de diagnóstico e de avaliação dos processos
escolares, papel do psicólogo, identidade profissional (ANDALÓ, 1993)
e o lugar da Psicologia enquanto ciência, em uma sociedade de classes,
foram pesquisados e problematizados pelos psicólogos e estudiosos da área
(BOCK, 2002). Portanto, a discussão crítica no campo da Psicologia Escolar
insere um novo eixo de análise do processo de escolarização: o papel das
políticas públicas educacionais na constituição do dia-adia escolar e
do aluno que aprende, na relação do professor com a sua tarefa docente,
nas condições objetivas que permitem que a escola realmente possa cumprir
as suas finalidades sociais.
8. Destacando-se o Movimento de Metalúrgicos
de São Bernardo do Campo (SP) descrito pelo livro de Eder Sader, intitulado
“Quando novos personagens entraram em cena”, 1988, Ed. Paz e Terra.
9. Um dos destaques aconteceu em São Paulo, por meio da
APEOPESP - Associação de Professores do Ensino Oficial Público do Estado
de São Paulo, organizando mais de 150 mil professores.
10. Trabalho importante de discussão desse período foi
realizado por MINTO, C.A. Legislação Educacional, cidadania virtual, anos
90.1996. Tese (doutorado) - Faculdade de Educação. Universidade de São
Paulo, São Paulo.
Assim, pesquisar a escola, as relações escolares,
o processo de escolarização a partir dos anos 80 significou pesquisar
uma escola que foi e está sendo atravessada por um conjunto de reformas
educacionais(11), fruto de políticas públicas no campo
da educação escolar. Se a crítica à Psicologia Escolar tradicional levava-nos
a compreender a escola e as relações que nela se constituem a partir das
raízes históricas, sociais e culturais de sua produção, mister se fazia
pesquisá-las no contexto das políticas públicas educacionais. Entender
as políticas públicas é compreender como os educadores, alunos e gestores
vivenciam sua implantação e participam de sua concepção.
11. Entre os primeiros trabalhos
de pesquisa sobre as temáticas das políticas públicas do estado de São
Paulo a partir das discussões postas pela Psicologia Escolar estavam os
de: Cunha, 1988; Souza, 1991; Souza, 1991; Cruz, 1994; Serroni, 1997.
Atualmente, os primeiros trabalhos sobre o tema
estão sendo publicados e as pesquisas têm mostrado algumas dificuldades
que precisam ser enfrentadas principalmente quanto à implantação de políticas
públicas em educação tais como: a) a manutenção de formas hierarquizadas
e pouco democráticas de implementação das políticas educacionais; b) a
desconsideração da história profissional e política daqueles que fazem
o dia-a-dia da escola; c) a implantação de políticas educacionais sem
a necessária articulação com a devida infra-estrutura para sua real efetivação;
d) a manutenção de concepções a respeito dos alunos e de suas famílias,
oriundos das classes populares, que desqualificam parcela importante da
população para a qual estas políticas são dirigidas; e) o desconhecimento
das reais finalidades das políticas educacionais implementadas pelos próprios
educadores; f) o aprofundamento da alienação do trabalho pedagógico e
a busca quase desumana de significado e de sentido pessoal (SOUZA, 2006).
Portanto, conhecer como as políticas são implantadas,
as questões postas pelos educadores com relação às concepções e perspectivas
e as condições de trabalho para sua implementação são fundamentais para
que o psicólogo atue no campo da educação. É importante ressaltar ainda
que, em muitos casos, embora denominadas de políticas públicas, muitas
das ações no âmbito dos estados e municípios não passam de programas de
governo ou até mesmo de uma parcela do governo eleito e que, em muitos
casos, apresentam solução de continuidade.
Questões referentes à profissão
Do ponto de vista da profissão, podemos dizer que
as críticas oriundas dos anos 80 contribuíram, sobremaneira, para uma
retração da presença do psicólogo no campo da educação. A constatação
de práticas adaptativas da criança em uma escola que não correspondia
às necessidades educativas postas por sua finalidade, fez com que muitas
redes de ensino retirassem psicólogos da área de atuação educacional para
o campo da saúde(12). O argumento que fortaleceu esta
transferência, de maneira geral, centrou-se no fato de que tais profissionais
atuavam em uma prática clínica e diagnóstica e não educacional.
No plano da educação, as lideranças políticas educacionais,
entidades representativas e acadêmicas do Magistério, incorporaram as
críticas dos anos 80 feitas pela Psicologia, identificando o psicólogo
enquanto pertencente à área de saúde tão somente e, soma-se a isso, com
uma noção de saúde vinculada à perspectiva médico-assistencial, considerando-o
um profissional que atuaria na mesma esfera de dentistas, fonoaudiólogos,
pediatras e, portanto, não devendo compor o quadro de profissionais da
escola.
Assim sendo, a hegemonia que foi fortalecida nas
práticas do psicólogo do pensamento de que o profissional de psicologia
pertencia somente à área da saúde e com uma abordagem que não contempla
o âmbito da complexidade do processo institucional, enfraqueceu outras
áreas de atuação existentes, como por exemplo a área educacional. Este
fato se materializa, no campo da educação, mais especificamente na promulgação
da LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, ao
afirmar no artigo 67, § 2º que:
Para os efeitos do disposto no §
5º do art. 40 e
no § 8º do art. 201 da Constituição Federal, são
consideradas funções de magistério as exercidas
por professores e especialistas em educação no
desempenho de atividades educativas, quando
exercidas em estabelecimento de educação básica
em seus diversos níveis e modalidades, incluídas,
além do exercício da docência, as de direção de
unidade escolar e as de coordenação e
assessoramento pedagógico.
12. No estado de São Paulo, o psicólogo
foi transferido da área da educação para saúde nos principais municípios,
tais como São Paulo, Campinas, Santos, São José do Rio Preto, dentre outros.
No município do Rio de Janeiro, a partir da década de 1990, o psicólogo
também foi transferido para a área da saúde, ficando na educação apenas
os contratados pelo estado, vinculados à educação especial.
E no ponto de vista da Psicologia, a opção por
descrever a atuação do psicólogo enquanto um profissional da área da Saúde
revela-se na atualização feita pelo Conselho Federal de Psicologia na
descrição presente no CBO – Classificação Brasileira de Ocupações, revista
em 2002, em que o verbete Psicólogos aparece juntamente ao termo Psicanalistas,
e tem como descrição geral da ocupação de psicólogo o seguinte texto:
Estudam, pesquisam e avaliam o desenvolvimento
emocional e os processos mentais e sociais de indivíduos, grupos e instituições,
com a finalidade de análise, tratamento, orientação e educação; diagnosticam
e avaliam distúrbios emocionais e mentais e de adaptação social, elucidando
conflitos e questões e acompanhando o(s) paciente(s) durante o processo
de tratamento ou cura; investigam os fatores inconscientes do comportamento
individual e grupal, tornando-os conscientes; desenvolvem pesquisas experimentais,
teóricas e clínicas e coordenam equipes e atividades de área e afins (CBO,
2002, s.p.). Os termos utilizados para descrever a profissão centram-se
em uma visão de diagnóstico, tratamento e cura, avaliação e de pesquisa,
cujo aspecto individual e emocional é a tônica. Conforme analisam Barroco
e Souza:
As novas descrições nos preocupam,
pois
ao longo de sua história, a Psicologia Escolar
e Educacional disponibilizou um dado corpo
teórico e uma dada forma de intervenção que
acabou por fortalecer uma compreensão
biologizante ou medicalizante da constituição
e do desenvolvimento do psiquismo humano e,
em conseqüência, dos motivos que levam à
não-aprendizagem (2008, Mimeo).
Portanto, as discussões que os psicólogos vêm realizando
no campo da educação, as questões postas para a atuação profissional em
uma perspectiva que critica a visão medicalizante da psicologia não são
contempladas nos descritores referentes à profissão de psicólogo, tampouco
naqueles que atuam no campo da educação. Temos, portanto, um desafio pela
frente: resgatar as finalidades da profissão no que tange às relações
com o campo educativo.
Questões referentes à formação profissional
As discussões a respeito da formação profissional
no campo da Psicologia se mantiveram durante a década de 90 (ANDALÓ, 1993;
SOUZA, 1996; MACHADO, 1996; TANAMACHI, 1997; MEIRA, 1997; YAZZLE, 1997)
fortalecidas pela busca de outros modos de subjetivação dos profissionais,
articuladas com os novos desafios sociais.
Mais especificamente, essas discussões desembocaram
na articulação nacional que norteou a elaboração das Diretrizes Curriculares
para o Curso de Graduação em Psicologia, cujas idéias são discutidas no
bojo da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). Sobre
tais discussões destacam-se o livro organizado por Guzzo (2002, 2ª ed.),
fruto de debates construídos no interior do Grupo de Trabalho em Psicologia
Escolar da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia
e o trabalho de Yamamoto (2000).
As Diretrizes comparecem no cenário nacional oficialmente
em 2004, trazendo mudanças bastante significativas em relação ao Currículo
Mínimo, em seus princípios, objetivos e metas, circunscritas ao modelo
dos Parâmetros Curriculares Nacionais, centradas na concepção construtivista
de aprendizagem. Nesta perspectiva teórico-metodológica, o currículo deverá
ser construído tendo em vista a aquisição de competências e habilidades
para a formação e o exercício profissional. Dentre as inovações previstas,
destaca-se a ruptura com a concepção de áreas de atuação profissional
no interior da formação. As áreas tradicionais (Psicologia Clínica, Escolar
e Organizacional) deveriam ser substituídas por ênfases curriculares,
a ser escolhida por alunos nos últimos períodos do curso e tais ênfases
poderiam ter inclusive aspectos de duas ou mais áreas interligadas.
Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para
a área de Psicologia, o que se espera de uma formação profissional em
psicologia pelas Instituições de Ensino Superior do Brasil é que esteja
voltada para a atuação profissional, pesquisa e ensino de Psicologia,
assegurando determinados princípios e compromissos, a saber: a) construção
e desenvolvimento do conhecimento científico em Psicologia; b) compreensão
dos múltiplos referenciais que buscam apreender a amplitude do fenômeno
psicológico em suas interfaces com os fenômenos biológicos e sociais;
c) reconhecimento da diversidade de perspectivas necessárias para compreensão
do ser humano e incentivo à interlocução com campos de conhecimento que
permitam a apreensão da complexidade e multideterminação do fenômeno psicológico;
d) compreensão crítica dos fenômenos sociais, econômicos, culturais e
políticos do País, fundamentais ao exercício da cidadania e da profissão;
e) atuação em diferentes contextos considerando as necessidades sociais,
os direitos humanos, tendo em vista a promoção da qualidade de vida dos
indivíduos, grupos, organizações e comunidades; f) respeito à ética nas
relações com clientes e usuários, com colegas, com o público e na produção
e divulgação de pesquisas, trabalhos e informações na área da Psicologia;
g) aprimoramento e capacitação contínuos.
No que tange à atuação do psicólogo no campo da
educação, as discussões iniciadas nos anos 80 tiveram excelentes resultados
e muitos se articulam com as questões postas pelas novas Diretrizes Curriculares,
como procuramos apresentar a seguir. A Psicologia Escolar e Educacional
tem suscitado inúmeras reflexões acerca da formação e da prática dos profissionais
que nela atuam, sobretudo, a necessidade de redefinição do papel do psicólogo
na escola e de reestruturação de sua formação acadêmica (BALBINO, 1990;
2007; BOCK, 2002; WITTER 1997, 2002; MALUF, 1994; JOBIM e SOUZA, 1996;
WECHSLER, 1996; ALMEIDA, 1999; DEL PRETTE 2001, 2002; GOMES, 2002; GUZZO,
1996, 2002; NOVAES, 2002; JOLY, 2000; SOUZA, 1996; CHECCHIA & SOUZA, 2003;
MARINHO-ARAÚJO, 2007; YAZLLE, 1990; MARTINS, 2002, MEIRA, 2002; MACIEL,
2001; MARASCHIN, FREITAS & CARVALHO, 2003; MARCONDES, FERNANDES & ROCHA,
2006; ARAGÃO, BARROS E OLIVEIRA, 2007, CRUCES & MALUF, 2007).
Segundo Novaes:
o surgimento de novos espaços e tempos
educativos provocará, sem dúvida, mudanças
não só no próprio sistema educacional e social
como nas práticas profissionais do psicólogo
escolar (2002, p. 98).
Afirma a autora que não podemos continuar vislumbrando
o futuro como uma mera continuidade do passado ou até mesmo do presente,
pois nos encontramos diante de uma crise histórica que “exige novas soluções
para novos problemas”. Neste sentido, afirma que “o psicólogo escolar
terá que procurar caminhos outros para ajudar a construir esse novo século
que já está em nossas portas” (p.101).
Para Gomes, a Psicologia Escolar também precisa
acompanhar a realidade atual: “Considerando que a sala de aula reflete
a sociedade, é urgente que a Psicologia Escolar transforme cada vez mais
o foco de interesse [...], (2002, p. 50), para isto:
[...] será necessário repensar a
Universidade que,
por um lado desenvolve pesquisas e aprimora os
conhecimentos na área e por outro não prepara
profissionais capazes de enfrentar o desafio de
promover Educação e Saúde no ambiente
escolar (p. 71).
Checchia & Souza consideram ainda que a formação
profissional deva, nesta área, favorecer:
a realização de uma prática de atendimento
psicológico
que busque a ruptura do fracasso escolar,
[...] considerando a complexidade das
práticas envolvidas na vida escolar (2003, p.125).
Para as autoras, a Psicologia no campo da dimensão
educativa do trabalho do psicólogo tem construído os elementos constitutivos
para uma atuação e uma formação em uma perspectiva crítica. Analisam que
tal construção baseia-se no tripé: a) compromisso da Psicologia com a
luta por uma escola democrática e com qualidade social; b) ruptura epistemológica
relativa à visão adaptacionista de Psicologia; e c) construção de uma
práxis psicológica frente à queixa escolar (p.126).
Mas como aproximar as questões postas na área da
Psicologia Escolar e Educacional e os desafios das Diretrizes Curriculares
em Psicologia? Marinho-Araújo tenta fazer esse exercício de análise e
de aproximação entre as discussões instaladas na área e os desafios das
Diretrizes Curriculares. Um primeiro aspecto destacado pela autora é a
necessidade de clareza em relação ao perfil profissional esperado do egresso
do Curso de Psicologia. Ou seja, que psicólogo desejamos formar?
Segundo a autora:
a implantação das Diretrizes requer
a construção
de um perfil crítico e comprometido com a transformação
das condições sociais e de trabalho que permeiam o
contexto escolar e educacional, articulando-se coletivamente
e defendendo a utilidade das intervenções, como suporte
ao reconhecimento social da profissão (2007, p.20).
Portanto, quando articulamos o perfil indicado
com as questões postas pela área, conforme analisa a autora, estaremos
nos comprometendo com uma formação que se encontra implicada com as concepções
que estarão na direção da busca pela cultura de ampliação das condições
de acesso e permanência da população no âmbito escolar, por novas concepções
sobre o desenvolvimento humano, pela direção da complexidade de sua definição,
substituindo paradigmas como o da doença e do tratamento pelo da saúde
nas relações e pela construção de estratégias que favoreçam políticas
públicas vinculadas à experiência concreta de coletivos.
Redimensionando a formação e as práticas da Psicologia
no campo da Educação para uma participação democrática
A escola é um modo de organizar a formação, de
pensá-la e de fazê-la – escola é uma organização possível entre outras
ainda não pensadas, não realizadas. Ela se apresenta como estrutura, previsibilidade,
organograma que estabelece como deve ser, porém quando falamos de escola,
falamos de padrões, de hábitos de papéis a desempenhar que não são neutros,
são escolhas, mesmo que isso não seja discutido e escolhido com clareza
porque as tradições, os interesses políticos já naturalizaram uma rotina
institucional. Uma organização é atravessada por instituições, por práticas
e valores que servem de referência aos atos que a atualizam diariamente.
Uma escola quando organiza seu cotidiano de trabalho,
afirma referenciais de normalidade, de certo e errado, de “quem sabe”
e de “quem não sabe e deve aprender”, de “como deve se comportar”. Afirma
valores, modos, tempos e marca lugares, classifica e impõe uma certa ordem
ao mesmo tempo que cria o que escapa, o que é avesso, o que é desordem.
Quase nunca problematizamos isso na escola, dificilmente se dá visibilidade
às instituições que estão em jogo nas relações. As equipes da educação
trabalham cada vez mais de forma acelerada, vivendo os efeitos das práticas
coletivas que tecem as tramas, sem conseguir entender o que se passa e
como criar alternativas às impotências cada vez maiores para muitos professores,
alunos, familiares e psicólogos.
Então, quando dizemos que o psicólogo quer trabalhar
a favor da vida, da cultura e da melhoria de condições de trabalho, isso
diz respeito ao enfrentamento das adversidades, às tentativas de colocar
em análise coletiva o que é produzido no cotidiano da sala de aula, da
escola, favorecendo a experimentação de um outro tempo menos acelerado,
mas talvez mais inventivo para dar conta do que não conhecemos, do que
é imprevisível.
Se os rituais da escola se constroem a partir de
modelos do bom aluno, do ritmo adequado para a aprendizagem, do comportamento
disciplinado, quando nos deparamos com a diversidade de vidas, de modos
de inserção das famílias e de seus arranjos para sobreviver, da composição
das turmas, dos diferentes estágios em que os alunos chegam e de seus
modos de compreensão das matérias.... o que fazer?
Quem é o especialista que vai fazer a mágica de
transformar o diverso em homogêneo? O múltiplo em “um”, caminho contrário
aos das práticas democráticas. Este é o lugar que nos aguarda quando chegamos
ao mercado de trabalho, às instituições que guardam tradições, mesmo com
a vigência de legislações mais favorecedoras aos processos menos centralizadores
e verticais. O desafio é produzir um deslocamento desse lugar (lugar impossível!)
já marcado para nós. A perspectiva é a de deslocar as demandas já existentes,
ou seja, de produzir outras demandas.
A luta do psicólogo, então, é a de sustentar um
campo de indagações que dê tempo para que os educadores possam se deslocar
também dos seus lugares marcados de quem sabe, de quem está impotente,
de quem já desistiu, contribuindo para a produção de novas perguntas que
coloquem em foco às relações entre “um” e “outro”, tirando de cena a exclusividade
dos corpos “em si” em situação de isolamento – que paralisa o trabalho
–, para poder perguntar sobre as situações, as circunstâncias, os valores,
as práticas que constroem o cotidiano – que movimenta o trabalho.
Certamente não faremos isso se não ampliarmos nossa
cultura educacional, se não procurarmos nos inteirar das polêmicas da
formação, se ficarmos parados em um certo “enquadre clínico” que só fala
de “um corpo” ou de “humano” como generalidade da espécie. Como estabelecem
Benevides e Passos é preciso reavaliar e criticar o conceito de humanização:
A humanização como política pública
deveria
criar espaços de construção e troca de saberes,
investindo nos modos de trabalhar em equipe.
Isto supõe, é claro, lidar com necessidades,
desejos e interesses destes diferentes atores.
A humanização se apresenta para nós como
estratégia de interferência no processo de produção
da saúde levando em conta que os sujeitos,
quando mobilizados, são capazes de transformar
realidades, transformando-se a si próprios neste
mesmo processo (2005, p.4-5).
Do mesmo modo, podemos dimensionar o conceito de
democracia entendendo-o como política pública, ou seja, de interferência
coletiva, de ação de todos que se exerce nos movimentos sociais, nas organizações
de representação de classes e também no cotidiano de vida e trabalho nas
instituições sociais, possíveis campos de fermentação das lutas como é
o caso das escolas.
Rocha (2001, p. 213-229) evidencia que a demanda
por psicólogos para o atendimento das crianças na escola só se dá quando
prepondera a luta por mecanismos de controle: o especialista só entra
em cena quando a escola se cristaliza em uma pluralidade de leis e abandona
o enfrentamento do coletivo nas suas divergências, enfraquecendo a capacidade
de negociação e os vínculos que tecem a rede social. É importante perceber
que tensões e conflitos estão sempre presentes e representam o investimento
dos sujeitos na vida daquela coletividade, obrigando a lidar com as turbulências
que se produzem a cada momento. É do difícil convívio com as inquietações
e com as diferenças que a solidariedade se engendra enquanto sentido e
ação comum que rompem com o isolamento.
Assim, evitando os riscos de reducionismos quando
se trata das discussões que atravessam as políticas públicas, consideramos
que a formação e o exercício profissional do psicólogo escolar/educacional
que trabalhe a favor de uma participação democrática junto à comunidade
escolar, implicam na polêmica da questão da diferença. E, no que tange
às dimensões de análise e de luta, Veiga-Neto introduz importantes relações:
[...] diferença não é antônimo de
igualdade.
Nós queremos a igualdade, mas ao mesmo
tempo nós queremos manter as diferenças.
O contrário de diferença é a mesmice,
o contrário de igualdade é a desigualdade.
Isso pode ser fácil de compreender; mas não
é uma coisa simples de executar (2005, p.58).
Ainda segundo o autor, os discursos e as ações
hegemônicas vinculadas às políticas públicas caminham no sentido de equalização
do diverso, e a escola não entra em discussão. Veiga-Neto ressalta que
qualidade, nessa perspectiva, será entendida e avaliada como o interesse
e o esforço ‘do diferente’ em chegar lá, reafirmando o modelo. O que é
o diferente? A princípio poderíamos dizer que é “o esquisito”, “o aluno
especial”, “o que foge muito ao padrão estabelecido” como “o bom”. Diríamos
“o diferente” e não a diferença porque a educação e a psicologia tradicionalmente
olham para “um”.
Todavia, podemos também, divergindo desse olhar
instituído, ao invés de falar “do esquisito” falar de esquisitices e aí
estaríamos falando de cada um de nós, de todos nós. Quando a escola é
um lugar para qualquer um? Quando o psicólogo pode contribuir para que
a intensificação da luta diária, permanente para acolher nossas esquisitices?
Tais perguntas não podem sair de cena, pois elas nos auxiliam a sustentar
polêmicas e análises sobre a prática pedagógica e também sobre as condições
sócio-históricoinstitucionais que a circunscreve.
A sociedade contemporânea sofreu um encolhimento
da organização pública, passando a ser vivida na ampliação do mundo privado.
Em muitas escolas a sala de professores virou um corredor de passagem
ou mais uma sala de aula, o tempo do recreio diminuiu, ou seja, os locais
e tempos de encontro “fora de controle”, estão sendo suprimidos em função
da quantidade de alunos e de aulas e isso traz efeitos que não podem estar
fora de foco.
O trabalho nas instituições implica atenção e cuidados
não diretamente nos corpos, mas nas redes interna e externa que tensionam
os corpos. Isso para os psicólogos, implica em conhecer mais de educação,
dos ciclos, das histórias das lutas por mudanças e dos modos como essas
mudanças ganham forma de leis e afetam os educadores que muitas vezes
não mais se identificam com a luta na forma que ganhou corpo na conquista
da lei. Isso porque compreender e atuar na complexidade do cotidiano escolar,
não tem sido tarefa fácil se a criança e o adolescente são vistos isoladamente,
sendo considerados na qualidade de portadores de diferentes carências
e patologias, o que se acentua, nos casos das classes populares, com as
questões sobre violência e riscos.
Se vivemos mal o espaço público, as misturas, as
diferenças, como trabalhar com coletivos, acentuando o caráter público
das ações? Público não é ser espectador, mas refere-se a abertura de espaço
polêmico para as práticas, o que implica um outro tempo, é publicização
do que se faz, trocas que fazem circular boas idéias e potencializam outras
idéias? Isso é uma questão para todos implicados com a formação.
Diferenças não são características, mas efeitos
de diferenciação envolvendo, portanto, o que resulta em outro modo de
pensar e de fazer formação. Fala de movimento, do que vai se modificando
no percurso em nós e nas relações a partir de nós (Rocha, 2006).
Conforme analisa Dallari, a cidadania está intimamente
relacionada com o processo participativo:
A cidadania expressa um conjunto
de direitos que dá
à pessoa a possibilidade de participar ativamente da
vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania
está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada
de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro
do grupo social (1998, p.14).
Formar não é moldar o informe, é criar um território
favorável à cooperação, a curiosidade, a indagação, a provisoriedade e
a permanente produção de sentidos – o que é permanente é a luta pela produção
de sentidos que nos faz coletivo e que nos ampara para suportar o provisório,
as mudanças necessárias para acolher nossas esquisitices.
Deste modo, pensar em mudar a formação não é só
trazer mais um recurso tecnológico, é possibilitar a produção de políticas
públicas, que ponham atenção sobre os efeitos de diferenciação, ou seja,
de como o percurso produzido por todos vem ganhado corpo, mas um corpo
em múltiplas formas.
A participação da Psicologia na discussão das contradições
e dificuldades do sistema escolar hoje vigente é, portanto, vital nesse
momento em que se encontra a escola brasileira, sob o risco de continuarmos
formando gerações de excluídos, de adolescentes e jovens que, por não
se apropriarem do conhecimento socialmente acumulado, estarão a mercê
das ideologias e do avanço do capital, e cada vez mais distantes dos direitos
sociais, da melhoria da condição de vida e da construção de uma educação
emancipatória e cidadã (NENEVÉ & SOUZA, 2006).
Legislação e práticas sociais
Considerando o contexto apontado anteriormente,
vislumbra-se que a participação de psicólogos no campo legislativo, seja
propondo projetos de lei ou acompanhando aqueles que estejam em tramitação,
deve considerar alguns princípios importantes que a área vem construindo
em sua trajetória, quer no campo das concepções sobre a ciência, quer
sobre a profissão, tais como:
a) a dimensão do trabalho do psicólogo na educação
escolar é institucional, o que significa trabalhar a partir de propostas
de coletivização das práticas, envolvendo os diversos setores e protagonistas
da escola, em articulação com as demais instâncias sociais e tendo como
perspectiva colocar em análise o campo de relações sócio-políticopedagógicas
para a melhoria das condições de vida e trabalho na escola;
b) as atividades que envolvem a atuação são de
cunho interdisciplinar e multiprofissional, articulando várias esferas
a partir da escola com a comunidade e redes sociais de apoio e de produção
de saúde e cultura. Para tanto, um aspecto a ser destacado é a importância
da construção de espaços de produção e circulação de conhecimentos entre
educadores, diferentes profissionais da escola e especialistas do sistema
de saúde, de assistência social e socioeducativo no sentido de intensificar
as trocas e favorecer ações conjuntas.
c) as práticas desenvolvidas no âmbito institucional
se constituem frente às demandas da escola, definidas coletivamente e
nas instâncias que elaboram o projeto político-pedagógico escolar. Partimos
da idéia de que o projeto político pedagógico explicita os anseios e as
perspectivas da escola por ser construído com a participação de todos
os segmentos, ou seja, de professores, comunidade, alunos e funcionários;
d) as ações buscam fortalecer a elaboração de políticas
públicas que de fato se articulem com as finalidades emancipatórias da
educação escolar; cabe aos educadores e demais segmentos da escola definirem
os seus princípios educacionais à luz das questões postas no campo da
Educação e ao psicólogo colaborar com o conhecimento da área para sua
elaboração;
e) a formação dos profissionais que atuam na educação
é permanente e requer o conhecimento e atualização no campo das contribuições
da área, do conhecimento construído academicamente e profissionalmente;
f) a ação profissional tem como perspectiva ampliar
a articulação das equipes escolares, criando novos possíveis na luta pela
qualidade de vida e condições de trabalho e levando em conta a construção
coletiva e consecução do projeto político pedagógico como instrumento,
entre outros, de democratização das práticas escolares. Esse é um grande
desafio, tendo em vista a heterogeneidade da(s) escola(s) e dos interesses
nela presentes: em sua atuação institucional, o psicólogo poderá avaliar
a cada momento os limites e possibilidades do desenvolvimento de seu trabalho
a fim de estabelecer estratégias pertinentes a sua consecução.
Tais aspectos a respeito da relação da Psicologia
com o campo da educação, sob os eixos mencionados neste texto, estão articulados
com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de psicólogos.
Dentre vários princípios, as Diretrizes defendem: a) o reconhecimento
da diversidade de perspectivas necessárias para compreensão do ser humano
e incentivo à interlocução com campos de conhecimento que permitam a apreensão
da complexidade e multideterminação do fenômeno psicológico; b) a compreensão
crítica dos fenômenos sociais, econômicos, culturais e políticos do País,
fundamentais ao exercício da cidadania e da profissão e c) uma atuação
em diferentes contextos considerando as necessidades sociais, os direitos
humanos, tendo em vista a promoção da qualidade de vida dos indivíduos,
grupos, organizações e comunidades. Portanto, temos um desafio que tem
início na formação de psicólogos de conceber um currículo alicerçado nestes
pilares, bem como propiciar a continuação dessa formação para além da
formação inicial, atualizando o profissional nas discussões técnicas e
políticas de seu campo de trabalho. Pudemos considerar que a Educação
Escolar é um campo em movimento, articulado com o movimento social e das
políticas vigentes, com todas as suas contradições e dimensões. E estamos
em um momento privilegiado pois estamos sendo chamados para construir
uma Psicologia enraizada nas questões sociais, cujos referenciais propiciam
uma análise crítica da realidade e articulada com as políticas públicas.
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Eixo Temático 3:
Psicologia e Instituições Escolares e Educacionais
Inclui temas oriundos de práticas desenvolvidas
por psicólogos em instituições escolares e educacionais, nos seus diversos
contextos formais ou informais. Envolve a atuação do psicólogo junto aos
alunos, suas famílias, educadores e demais profissionais ligados à educação
que recorreram à Psicologia como forma de contribuir para que a escola
ou instituição educacional seja um espaço democrático de acesso ao saber
culturalmente instituído e da produção de novos saberes.
EIXO 3 – TEXTO BASE:
Psicologia em Instituições Escolares e Educativas: Apontamentos para um
Debate
Raquel Guzzo(13)
A presença do psicólogo em instituições escolares
e educativas, servindo à construção de melhores possibilidades de desenvolvimento
das crianças e adolescentes no Brasil, vem sendo há décadas motivo de
debates em diferentes espaços de decisões, tanto científicas quanto profissionais.
A produção de conhecimento que pode propiciar a prática de acompanhamento
integral à criança e sua família ao lado do professor torna-se inócua
em situações em que o profissional da psicologia não esteja presente no
cotidiano das instituições. Dito de outra forma, o conhecimento produzido
pela psicologia para a atuação em contextos educativos somente servirá
para a realidade brasileira se for construído pela inserção dos profissionais
nestes contextos.
13. Psicóloga, Doutora em Psicologia
Escolar e do desenvolvimento humano, Professora da Pontifica Universidade
Católica de Campinas, São Paulo.
A formação cada vez maior de psicólogos no país,
ainda preponderantemente para a atuação clínica, dificulta a inserção
efetiva do profissional nestes espaços e acaba por impedir que a relação
– teoria e prática – deixe de produzir avanços para a realidade de uma
maioria de crianças e adolescentes que vivem sua escolaridade na rede
pública.
O Sistema Conselhos de Psicologia toma a iniciativa
de provocar um debate nacional sobre esta temática com a finalidade de
pensar, formular e propor referências para este espaço de exercício profissional
e, ao mesmo tempo, criar possibilidades de transformação da realidade
pela mudança estrutural das escolas públicas brasileiras. Esta iniciativa
parte do debate sobre este texto, que tem o objetivo de situar a psicologia
brasileira no contexto educativo, identificar alguns de seus problemas
e apontar posições e possibilidades para que esta iniciativa resulte em
uma ferramenta de transformação social. Por isso, de forma bastante resumida,
este texto está estruturado em alguns eixos:
1. O papel do psicólogo em contextos educativos –
para que serve este profissional?
Os contextos educativos são espaços onde crianças
e adolescentes deveriam se desenvolver de maneira formal ou não, livre
ou organizadamente, na presença de adultos responsáveis ou em interação
com outras crianças e adolescentes. Este processo é permeado por diferentes
influências e condições objetivas nem sempre identificadas e trabalhadas
pelos professores, sobretudo pela situação precarizada da escola – muitas
crianças por sala, método generalizado de ensino, falta de acompanhamento
individualizado, ausência de técnicos, dentre outras – que acabam por
produzir sérios problemas.
A presença do profissional de psicologia nestes
contextos propicia o acompanhamento do desenvolvimento de crianças e adolescentes
em seus espaços de vida, procurando relacionar elementos dos diferentes
contextos, como familiares ou comunitários que favorecem ou dificultam
este processo. Trata-se de um papel relevante, na medida em que estando
inserido na dinâmica do contexto, pode contribuir para construir um entendimento
mais integrado sobre o que acontece com a criança e sua família. Tem sido
muito difícil programar qualquer intervenção com os problemas gerados
nos contextos educativos quando se avalia a situação sem estar participando
do cotidiano destes espaços. Pertencer ao quadro de profissionais das
escolas e outros espaços não-formais de educação coloca para o psicólogo
um outro nível de exigência profissional que nem sempre tem sido desenvolvido
na sua própria formação. O papel de diagnosticar e encaminhar ou tratar,
caso a caso, em um modelo de atuação que prioriza o indivíduo isolado
de seu contexto de desenvolvimento, traz conseqüências desastrosas na
satisfação das necessidades da população em relação a este serviço, sejam
professores, equipe de direção da escola pais ou estudantes.
Muito se tem questionado sobre a importância do
psicólogo no contexto educativo, com argumentos de que o psicólogo é profissional
da saúde e, portanto, deve se alocar em espaços da saúde e não educativos,
que a escola é de educadores, que não há recursos na Educação para contratar
mais técnicos, que os psicólogos atrapalham o trabalho dos professores
e orientadores educacionais e pedagógicos, dentre outros. Há diferentes
fundamentos para estes questionamentos. Alguns deles contundentes se referem
diretamente ao próprio perfil de formação do profissional: 1) os psicólogos
não sabem como agir nas escolas, seja porque não aprenderam ou não vivenciaram
esta realidade em seu tempo de formação, seja porque diante de uma realidade
difícil e bastante complexa, os conhecimentos psicológicos e ferramentas
profissionais têm pouco a contribuir – a psicologia tem servido à uma
realidade que não dá conta dos problemas sociais presentes em uma sociedade
como a nossa; 2) a população espera do profissional de psicologia – expectativa
construída ideologicamente – que ele atue no modelo médico, culpabilizando
o indivíduo pelo seu problema e tratando-o de preferência longe do seu
contexto de desenvolvimento. Outros abordam questões mais amplas ligadas
ao sentido, papel e posição política da profissão. Desde seu nascimento,
a psicologia como ciência tem se constituído ao lado de uma sociedade
dominante – capitalista e burguesa. Pensar, portanto, em uma psicologia
que se construa como elemento de uma parcela excluída da população, oprimida
e explorada exige dos profissionais um tempo de questionamento sem efetivas
respostas em uma prática que se consome em meio a tragédias e barbáries.
Por esta razão, pensar politicamente o sentido e o papel do psicólogo
em contextos educacionais é uma tarefa de imensa importância que não somente
deve afetar a posição dos profissionais nos postos de trabalho, mas, prioritariamente,
contribuir para o avanço da construção de uma ciência e uma profissão
comprometida com as massas.
2. O desenvolvimento desta área de atuação no Brasil
– dificuldades e perspectivas
A história da Psicologia no contexto educacional
no Brasil ainda não foi totalmente escrita. Há trabalhos que descrevem
eventos, nem sempre associados a uma cronologia política que marca nossa
história e conseqüentemente nossa profissão. Sob o lema “separar para
dominar” o legado da ditadura militar trouxe para nós psicólogos a falsa
idéia de que nossa profissão estaria mais protegida e avançaria em gênero,
número e grau dentro do modelo de formação e atuação clínica, até porque
certas práticas profissionais e conceitos psicossociais e comunitários,
políticos, portanto, estariam associados a este tempo, como uma prática
subversiva a qual deveria ser expurgada da sociedade brasileira. Assim,
pouco mais de 4 anos de regulamentação da profissão já eram vistas, no
cenário brasileiro, as mais nefastas conseqüências para a formação e atuação
profissional. Com muito esforço de poucos, a semente revolucionária da
psicologia não desapareceu por completo. A psicologia social, comunitária,
política e escolar, e outras áreas mais novas, contudo também voltadas
para o entendimento do sujeito psicológico em contexto histórico e social,
refletem hoje a necessidade de uma radicalização na área, sobretudo na
formulação de diretrizes de formação profissional e abertura de campos
de trabalho que se voltem para as maiorias. Este desafio ainda não foi
cumprido. Dados oficiais que retratam o perfil do psicólogo brasileiro
mostram o conservadorismo da profissão, seu posicionamento apolítico e
a quase total inoperância diante dos problemas sociais vividos pela população
brasileira. O consultório particular, o atendimento individualizado, e
a idéia de que o problema é centrado no individuo e não focado nos seus
contextos imediatos e mediados de relações, ainda são a marca da profissão
e da área do conhecimento.
Com estas dificuldades, nossos limites se acentuam.
Não estamos nas redes públicas de educação, a não ser em raríssimas exceções
e de forma ainda bastante precarizada. Não conhecemos a fundo as políticas
educacionais que despencam sobre o teto das escolas de forma absolutamente
autoritária e que têm impactos evidentes sobre professores, gestores e
comunidade de pais e estudantes. Não participamos dos fóruns políticos
em que a comunidade de educadores em esforço vigilante, porém com desgastes
enormes, empreendem para a tentativa de melhorar a dinâmica destes espaços.
Não participamos, enfim da vida que pulsa dentro dos espaços educativos.
Isto tem uma conseqüência – mantemos o ciclo de formação e profissionalização
dos psicólogos fora destes espaços de trabalho!
3. As possibilidades de mudança
O processo de inserção dos psicólogos nas redes
de ensino, especialmente municipais e estaduais, tem se caracterizado
por avanços e retrocessos. Há municípios e estados que já incluíram o
profissional na equipe da escola e podem, com mais propriedade, contribuir
para uma avaliação desta inserção. Apesar disso, ainda tem sido difícil
congregar educadores, psicólogos e comunidade para um debate sobre o que
vem sendo o trabalho neste campo.
É preciso que uma avaliação profunda destas experiências
transpareça para a rede de ensino e aponte os caminhos mais contundentes
para este exercício profissional no sentido de construir uma nova sociedade
por meio de uma transformação radical.
Para que isso seja possível, é preciso buscar fundamentos
críticos para a construção de um conhecimento psicológico comprometido
com a realidade da escola brasileira, avaliar dimensões psicossociais
de comunidades e indivíduos em situados historicamente, compreender as
redes de apoio, suportes e equipamentos públicos e privados que sustentam
as ações comunitárias e a dinâmica dos movimentos sociais presentes em
determinados espaços geográficos – quem são e como vivem estudantes, professores,
pais e gestores das instituições de ensino e sua comunidade. Sem um conhecimento
profundo e fundado na realidade qualquer intervenção resultará na manutenção
do estado das coisas e revelará a cada dia um antagonismo crescente sobre
a presença do psicólogo nas escolas.
Caminhando na direção da transformação social
A idéia de que caminhamos na direção da transformação
social vem da constatação de que a história da humanidade tem sido construída
em bases sociais e econômicas anti-humanitárias. Enquanto pensamos em
cuidar do desenvolvimento de crianças e adolescentes para que possam viver
em paz e com saúde, precisamos incluir nesta proposta a compreensão de
que pouco adianta uma ação que não leve em conta, o contexto político
e social em que estas crianças se desenvolvem.
A compreensão, portanto, da história do capitalismo
como sistema econômico que determina a qualidade de relações sociais,
que tem profundos impactos na produção e distribuição de riqueza, na ocupação
do solo, na conservação do meio ambiente e dos recursos naturais, na produção
da miséria e da desigualdade social, na formulação de políticas sociais
e na manutenção dos direitos fundamentais para a vida em sociedade, como
educação, saúde, habitação e trabalho, passou a integrar as questões essenciais
de formação dos psicólogos para atuarem nestes contextos psicossociais.
Não há como desenvolver a cidadania, prevenir e
proteger o desenvolvimento de crianças e adolescentes em um sistema que,
pela sua estrutura não permite o direito à igualdade e à liberdade, portanto
nossa posição, a partir desta constatação torna-se extremamente vulnerável,
se não construirmos um modelo teórico e prático que estabeleça a relação
possível da psicologia com o desenvolvimento da consciência que torna
o sujeito ativo em sua própria história. Diante disso, uma análise da
realidade concreta, do modo de viver capitalista traz uma dimensão de
importância para o conhecimento dos contextos onde crianças, adolescentes
e suas famílias vivem.
A Psicologia como ciência e profissão esteve por
muito tempo, desde sua origem até hoje, a serviço de um projeto político
de sociedade e que, se quisermos, de fato, contribuir para a transformação
social será preciso reescrever, redefinir, reconstruir fundamentos e ações
profissionais a partir de uma perspectiva crítica, silenciada por interesses
dominantes de um imperialismo cultural que nos impõe uma formação profissional
desprovida de reflexão e análise da realidade, mantida por reprodução
mimética de técnicas que pouco contribuem para fazer avançar os propósitos
de desenvolvimento pessoal e social na direção da libertação e da emancipação.
Diante desta constatação, cada vez mais evidente
seja pela inserção do psicólogo em contextos educativos e comunitários
ou pelas dificuldades presentes nos processos de construção de efetivas
propostas de prevenção e que provoquem mudanças sociais, o caminho a ser
percorrido passa a ser, prioritariamente, aquele que compreende o ser
humano como constituído a partir de sua condição social e histórica.
Esta maneira de pensar caminhos para a mudança
social assume uma perspectiva materialista da realidade, em que a vida
é síntese das condições criadas pelos homens e não somente daquelas existentes
na natureza. O desenvolvimento de ações transformadoras, tanto no plano
pessoal quanto coletivo, está intrinsecamente ligado à análise da realidade
em sua totalidade concreta.
Alguns indicadores mostram que, no mundo, têm se
acentuado grandes diferenças entre ricos e pobres, entre aqueles que possuem
os meios de produção e outros que vivem na miséria, entre os que acumulam
riquezas e os que mendigam o que comer entre os que trabalham para construir
as riquezas sem desfrutar delas e os que concentram as riquezas produzidas
explorando o trabalho de outros. A desigualdade pode ser evidenciada por
meio de diferentes indicadores. No entanto, pouco adianta um conjunto
de índices numéricos, se a análise sobre como estes elementos atingem
a vida dos indivíduos concretos não é realizada.
A questão que se coloca para o trabalho do psicólogo
está relacionada ao sofrimento de pessoas e grupos, manifesto por respostas
de violência, sentimentos de impotência, fatalismo e alienação diante
de mecanismos de exploração e opressão que, sob diferentes formas, estão
presentes e nem sempre percebidos no cotidiano, também da escola.
Por esta razão, pensar a psicologia como uma ferramenta
para o fortalecimento de pessoas e grupos, e a Psicologia Escolar como
alternativa para a compreensão dos processos psicossociais presentes no
contexto educativo, são propostas que ajudarão a construir os processos
de transformação qualitativa da escola, na promoção do bem-estar das pessoas
e comunidades.
Eixo Temático 4: Psicologia no
Ensino Médio
Este eixo refere-se às experiências de professores
de Psicologia cuja atuação profissional focalize novas propostas curriculares,
projetos ou ações institucionais comprometidos com a democratização das
relações escolares e do Ensino, portanto, urge ratificar sua importância
ao oferecer para os estudantes fundamentos que lhe permitam compreender
as diferentes dimensões da subjetividade, os processos de constituição
do sujeito em uma sociedade, ampliando e consolidando assim, uma educação
humanizada e com compromisso social.
EIXO 4 – TEXTO BASE:
Psicologia no Ensino Médio: desafios e perspectivas
Ângela Fátima Soligo(14)
Roberta Gurgel Azzi(15)
A presença da Psicologia no campo da Educação brasileira
confunde-se como sua própria história de inserção no Brasil, já que é
por meio da Educação que o conhecimento psicológico aporta no cenário
nacional, ainda no século XIX.
Quer seja como conhecimento teórico que permite compreender os processos
psicológicos, os caminhos do desenvolvimento humano, os processos de aprendizagem,
quer seja como referencial que orientava as metodologias de ensino, práticas
pedagógicas e procedimentos de avaliação, a psicologia foi construindo,
ampliando e diversificando seus espaços no campo educativo.
14. Psicológa, Doutora em Psicologia,
Professora da Faculdade de Educação da Unicamp, São Paulo.
15. Psicóloga, Doutora em Educação, Professora da Faculdade
de Educação da Universidade Estadual de Campinas, São Paulo.
No seu processo de constituição e consolidação
no campo educativo, a Psicologia foi construindo formas de compreensão
do sujeito histórico, cujas condutas no espaço escolar só podem ser compreendidas
nas relações que nele se estabelecem, a partir dos complexos e multivetoriais
condicionantes estruturais, sistêmicos e políticas (Guzzo e Wechsler,
1993; Patto, 1999).
De lugar da norma, que marcou os primórdios da
Psicologia no contexto educativo, a Psicologia Escolar e Educacional foi
se consolidando como lugar da compreensão, da atenção às diferenças, às
subjetividades construídas na relação com a cultura e a sociedade. A escola
passa a ser compreendida na sua complexidade, como instituição social
que, longe de ser neutra, reproduz ideologia, mas também possibilita acesso
aos conhecimentos valorizados e construção de percursos de aprendizagem.
Os sistemas educativos, o currículo escolar, a relação professor/alunos,
a identidade do professor, as diferenças e preconceitos, a relação escola-comunidade,
passam a compor o universo da pesquisa no campo de Psicologia Escolar
e Educacional.
O âmbito do Ensino é também, historicamente, um
dos fortes referenciais de inserção da Psicologia na Educação. Podemos
considerar, como marco da entrada da Psicologia no ensino regular, a criação
da unidade programática – Psychologia, na cadeira de Filosofia, em 1850,
no colégio Pedro II, no Rio de Janeiro (Vechia & Lorenz, 1998). Este fato
é notório e significativo, uma vez que o referido colégio foi criado,
em 1834, para ser um parâmetro da Educação Secundária Nacional.
A partir de 1890, a Psicologia passaria a compor,
como disciplina, o currículo das Escolas Normais (Massimi, 1993), nos
programas de formação de professores, e se mantém até hoje como um dos
referenciais na formação de professores, tanto no nível médio quanto na
educação superior.
Na história do ensino médio do país a Psicologia
teve uma trajetória marcada, ao mesmo tempo, por irregularidade e constância:
irregularidade porque em diferentes momentos históricos e modalidades
de formação, a psicologia aparece com maior ou menor importância. Ao mesmo
tempo constância porque, aparte as oscilações no que toca ao grau de relevância
reconhecida da Psicologia, ela esteve o tempo todo presente, quer seja
no ensino regular, quer seja no ensino médio profissionalizante (em algumas
áreas, consideradas de extrema relevância, como na saúde, na administração
e na formação de professores).
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
– LDBEN de 1971, engendrada no período da ditadura militar, pôs fim à
presença das Ciências Humanas no Ensino médio Regular, privilegiando uma
formação tecnicista, voltada ao mercado de trabalho – para as classes
trabalhadoras – ou para a formação universitária – para a classe média
e as elites.
O processo de redemocratização do país trouxe de
volta o debate sobre os rumos da educação do país e a necessidade de profundas
mudanças nos sistemas educativos, bem como em toda a sociedade, culminando
com a constituição de 1988 e a LDBEN de 1996.
No conjunto de mudanças advindas desse longo processo
de retomada da democracia, reconhece-se a importância das Ciências Humanas
na formação dos adolescentes e jovens e a LDBEN/96 incorpora as disciplinas
Filosofia e Sociologia no currículo do Ensino Médio. A Psicologia, embora
tendo sido reconhecida sua importância como conteúdo transversal, não
é incorporada como campo disciplinar.
No Estado de São Paulo(16), por
exemplo, em distintos momentos desde o processo de redemocratização, importantes
iniciativas marcaram a retomada do Ensino de Psicologia no Nível Médio
Regular.
Nos anos 80, a partir de uma parceria entre a Coordenadoria
Estadual de Normas Pedagógicas – CENP, da Secretaria de Estado da Educação
e o Conselho Regional de Psicologia, foram realizadas discussões e criado
um grupo de trabalho que publicou, em 1986, uma proposta para o ensino
de Psicologia no Nível médio, que até hoje é referência para o ensino
de Psicologia no Nível Médio. Nesta época, a Psicologia passou a figurar
como disciplina obrigatória no Estado de São Paulo.
Na década de 90, ela passa ao núcleo diversificado
do currículo, de caráter eletivo, mas nova iniciativa envolvendo a Secretaria
de Educação e o CRP, buscando redefinir parâmetros curriculares para o
Ensino Médio – em que a Psicologia figuraria como disciplina obrigatória
– resultou em estudos e publicação de textos geradores, porém não se logrou
a incorporação da Psicologia no Nível Médio.
Nos anos 2000, ainda no Estado de São Paulo, novamente
a CENP convocou profissionais da área de Psicologia, bem como das demais
áreas do conhecimento, para organização das diretrizes curriculares do
Ensino Médio. Nessa proposta, a Psicologia figurava como disciplina obrigatória.
A proposta jamais saiu do papel.
Em cada Estado brasileiro, pode-se narrar um processo
de encolhimento do espaço da Psicologia no Ensino Médio regular, a partir
da LDBEN/96, ao mesmo tempo em que seu lugar vai se consolidando nos cursos
técnicos e profissionalizantes, em especial os das áreas de saúde, comunicação,
administração e serviços de atendimento (Moreno, 1996).
16. Esse texto traz como exemplo
a experiência do Estado de São Paulo, pois em três momentos distintos
e significativos (décadas de 80, 90 e anos 2000), a inserção da Psicologia
como disciplina obrigatória no Ensino Médio foi objeto de reflexão e produção
de documentos que são referência para a discussão atual. No entanto, não
se assume aqui que a experiência de São Paulo tenha sido a única, apenas
que esta está documentada e pode servir como desencadeador para reflexões
mais gerais acerca da temática.
Por que psicologia no Ensino Médio
A defesa da presença da Psicologia como disciplina
obrigatória do Ensino Médio parte de dois princípios fundamentais:
1. A Psicologia é um vasto campo de conhecimento
que, ao longo de sua história, tem se debruçado sobre as grandes angústias
e dilemas humanos e produzido referenciais teóricos que permitem a compreensão
das subjetividades humanas, construídas na relação com a sociedade, a
cultura, o tempo.
Questões como o sofrimento humano, a angústia, o desamparo, a busca da
identidade, a inteligência e suas representações, o preconceito e a humilhação
social, a aprendizagem e suas vicissitudes, os gêneros e a sexualidade,
as linguagens e a comunicação, os grupos sociais, o trabalho e a alienação,
entre outras, têm na Psicologia uma abordagem profunda, que permite a
compreensão, reflexão e orientação de ações.
2. Cursar o ensino médio, direito que assiste a
todos os jovens brasileiros, representa mais do que garantir chances no
mercado de trabalho imediato ou de aprovação no vestibular. Segundo a
própria LDB, a educação deve promover a reflexão, o pensamento crítico
e criativo, a construção de autonomia de pensamento e cidadania. Nesse
sentido, os conhecimentos, pensados de forma articulada, são considerados
elementos fundamentais para a formação desse sujeito autônomo e cidadão.
Ora, para construir-se como sujeito pleno, é preciso compreender a vida,
nas suas possibilidades e dilemas. O acesso a um conhecimento que permita
a compreensão do humano subjetivo é, portanto, um direito do aluno. A
democratização desse conhecimento, por meio do ensino de Psicologia, um
dever dos sistemas educativos.
Por que Disciplina
As Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino
Médio, publicadas em 2006, apontam para uma proposta de superação do modelo
disciplinar desarticulado que vem marcando o Ensino Médio brasileiro.
Neste sentido, apontam para a necessidade do diálogo interdisciplinar,
para a construção de projetos coletivos, para a formação humana que supere
a mera reprodução de conhecimentos acabados, mas que mire à aprendizagem
como processo constante da vida.
Assim construídas, as orientações apontam os conteúdos
de natureza psicológica como componentes que passam transversalmente pelas
demais áreas do conhecimento, portanto não restritos a uma única disciplina.
No entanto, cumpre-nos questionar: pode-se confundir
uma área do conhecimento com temas transversais? Têm eles o mesmo status?
Certamente que não. Além disso, se tomadas as questões psicológicas como
temas transversais, quem as trabalharia, e a partir de que formação? Se
desvincularmos, portanto, as questões da subjetividade, da área de Psicologia
(mesmo que a ela não estejam restritas), corre-se o risco de dar a elas
um tratamento superficial, baseado unicamente no senso comum e na experiência
imediata, e portanto de se produzir e reproduzir conceitos naturalizados,
estereótipos, preconceitos. Perde-se, portanto, o sentido formativo e
crítico presente nas orientações.
Na perspectiva educativa que se apresenta, a inclusão
da Psicologia como disciplina não vem, portanto, como contraponto à proposta
de articulação de conhecimentos e da visão interdisciplinar. Ao contrário,
fornece, como disciplina, uma outra possibilidade de olhar para as questões
e dilemas da contemporaneidade, que faz interface com as demais áreas
do conhecimento.
A volta da Psicologia ao Ensino Médio, juntamente
com as demais ciências humanas, pode representar uma importante mudança
de paradigma de formação dos adolescentes e jovens brasileiros, na perspectiva
de superação do ensino tecnicista que marca essa etapa da escolaridade,
e de formação humana que mire à autonomia, à criatividade, à diferença
compreendida e vivida para além do preconceito, das rotulações, da hostilidade.
Marca, assim, um espaço significativo e relevante da Psicologia no cenário
educativo.
Os conteúdos da Psicologia para o Ensino Médio –
superando o dualismo teorias-temas
Ao analisarmos os conteúdos de relevância para
o ensino médio, com freqüência nos deparamos com a questão da organização
e priorização dos conteúdos, em que ora se defende a abordagem a partir
das teorias psicológicas clássicas, ora se defende a abordagem por meio
de temas.
Não se pode, no entanto, cair na armadilha da oposição
teoriatemas. As teorias psicológicas, como forma de compreensão da subjetividade
humana, das relações entres os homens, das questões que os inquietam em
distintos tempos, são plenas do sentido no cotidiano, refletem dimensões
das realidades em que se inserem. Portanto, apresentam conceitos e parâmetros
que orientam a pesquisa psicológica atual e permitem compreender os aspectos
e problemas da contemporaneidade, representados pelos temas.
A partir das idéias de estranhamento e de desnaturalização,
presentes nas Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio,
podemos destacar contribuições teóricas que representam fundamentos clássicos
da área, bem como novas contribuições teóricas.
A psicanálise de Freud, em seu tempo, marcou rupturas
importantes no modo de compreender a condição humana e seus determinantes.
Ao postular a tese do inconsciente, veio questionar a idéia corrente de
que toda conduta pode ser compreendida a partir da consciência, da razão.
Os lapsos explicativos advindos do privilegiamento da razão tiveram com
a psicanálise a possibilidade de uma compreensão mais profunda, que alteraram
visões estreitas e mesmo preconceituosas sobre a doença mental e os sofrimentos
humanos (Freud, 1997).
A postulação da sexualidade infantil, ao mesmo
tempo em que colocou em cheque uma visão ingênua de infância, bem como
perspectivas demonizantes (o infante selvagem) que negavam à criança sua
condição de sujeito, estabeleceu um outro status para a sexualidade, na
medida em que na psicanálise a sexualidade é força vital, que nos impulsiona
e humaniza. Vista a partir dessa perspectiva, a sexualidade não é aquilo
que nos perverte, mas sim aquilo que nos constitui, nos move para a vida
e para a produção de cultura.
Também as configurações familiares e o papel dos
pais têm na psicanálise lócus privilegiado, na medida em que, desde o
nascimento, o sujeito vai aprender a vida em sociedade e os padrões de
existência no grupo social a partir das relações familiares, que vão fornecer
os parâmetros de subjetividade, os valores, os tabus, os ideais que circulam
no seu grupo, em uma dada cultura.
Não é difícil identificar a importância de tal
abordagem, no contexto da formação dos jovens, se considerarmos que parte
dos conflitos de adolescentes e jovens tem sua origem nas dificuldades
de viver e compreender sua sexualidade frente aos padrões de gênero da
contemporaneidade, bem como os estereótipos e preconceitos que modulam
as subjetividades e sexualidades.
As novas sociabilidades e configurações familiares
são também possibilidades de reflexão que têm na psicanálise interessante
recorte para os jovens.
As abordagens do comportamento trazem também significativos
olhares para a realidade atual. Ao questionar a idéia de liberdade que
dá suporte ao pensamento contemporâneo, liberdade individual – de um indivíduo
pensado de forma abstrata, desconectado da vida, das relações concretas,
Skinner veio mostrar que não se pode explicar o homem fora de seu contexto.
Ao eleger o comportamento como objeto, trouxe relevantes contribuições
para compreendermos como o comportamento humano influencia e é influenciado
pelo ambiente colocando em evidência, portanto, uma perspectiva de sujeito
social. Focou sua discussão nos processos de aprendizagem e nas formas
como a organização do ambiente e as condutas interindividuais favorecem
ou dificultam os processos de aprendizagem (Skinner, 1983).
As abordagens recentes do comportamento, da psicologia
sóciocognitiva, trazem interessantes contribuições para pensarmos a escola
e as aprendizagens, que podem fornecer subsídios para que os adolescentes/jovens
apropriem-se de forma significativa de seu processo de aprendizagem. Destacam-se
nessa direção os estudos sobre atribuição de causalidade e as pesquisas
sobre organização do tempo e estratégias de estudo, bem como a perspectiva
da autoeficácia desenvolvida por Bandura (Azzi e Polydoro, 2006).
De Piaget muitas contribuições foram incorporadas
no campo da educação, mas no contexto do ensino médio destacamos a perspectiva
de inteligência que se evidencia na visão construtivista. Sem dúvida,
a desnaturalização do conceito de inteligência, a desconstrução de uma
visão estática e biologizante que se postulou nas perspectivas psicométricas,
são contribuições preciosas na visão piagetiana. A idéia de que a inteligência
é uma atribuição humana, um processo que nos caracteriza a todos e que
nos faz buscar o conhecimento, a partir de nossas condições e possibilidades,
de que a inteligência se desenvolve na interação com o mundo, não nasce
pronta nem está acabada, favorece uma compreensão de nossas possibilidades
e dificuldades não como limites intransponíveis, mas como desafios a serem
enfrentados e aberturas para novos caminhos (Piaget, 1970).
Em uma escola que ainda separa “bons” e “maus”
alunos, que ainda rotula como não inteligentes aqueles que não obtêm sucesso
nas tarefas escolares, em que o erro não é encarado como desafio, mas
como impossibilidade, oferecer ao jovem a possibilidade de uma compreensão
da relação inteligência – aprendizagem que ultrapasse os naturalismos
e preconceitos, traz para os jovens a possibilidade de compreender seu
papel e condição no contexto escolar de modo a superar a introjeção de
culpa pelo fracasso que ainda marca os discursos pedagógicos oficiais
e assumir uma postura ativa na busca pelo conhecimento.
Na perspectiva histórico-cultural desenvolvida
por Vygotsky vamos encontrar os fundamentos para a compreensão do homem
como ser social, historicamente constituído nas relações com o mundo,
com a cultura. A ênfase na mediação social, em que se destaca o papel
da linguagem, nos coloca diante de uma teoria que busca compreender a
consciência não como faculdade humana arbitrária, mas como função humana
que se desenvolve na relação sujeito-mundo, em que a linguagem, como constituída
e constituinte de significados socialmente produzidos, ao mesmo tempo
em que modela os modos de pensar de uma determinada cultura, expressa
as subjetividades e diferenças constituídas nessa cultura (Vygotsky, 1991).
Tal perspectiva tem, portanto, alto potencial compreensivo
das distintas manifestações jovens em que a linguagem marca a diferença,
seja por meio das novas mídias – Orkut, MSN e outras – seja por meio de
pichações, grafites, seja por meio de manifestações culturais como a música,
a poesia, o teatro.
A diferença, entendida como expressão das subjetividades
constituídas na relação homem-mundo, pode ser tratada na perspectiva de
superação de estereotipações e preconceitos.
As perspectivas apresentadas têm ainda, todas elas,
a contribuição de trazer um foco altamente relevante sobre a afetividade,
elemento constituinte do sujeito que ainda não está suficientemente incorporado
nos parâmetros de compreensão de sujeito que circulam na escola.
As teorias clássicas da Psicologia têm inspirado
e fundamentado grande parte dos estudos contemporâneos sobre o homem e
suas relações com a escola, que ao mesmo tempo as enriquecem e relativizam,
reforçam conceitos e ampliam formas de compreensão, superando suas limitações.
Outras abordagens certamente trouxeram contribuições para compreensão
do sujeito e de suas relações com o mundo e a realidade escolar, como
o Humanismo e a Gestalt, por exemplo.
Duas outras contribuições no campo da Psicologia
merecem ainda destaque: o desenvolvimento da Psicologia Escolar/Educacional
no Brasil e a Psicologia Social contemporânea.
Desde meados da década de 70, começaram a surgir
no Brasil estudos na área de Psicologia Escolar/Educacional que se contrapunham
a uma visão clínica na escola, fundada na mensuração de características
individuais e tratamento dos alunos não adaptados. A perspectiva que começava
a se desenvolver, inspirada em concepções histórico-dialéticas, considerava
a escola a partir de sua inserção no contexto social e político, e propunha
pensar não as características do aluno como determinantes da aprendizagem,
mas sim o processo ensino-aprendizagem. Processo relacional, recíproco,
em que estão implicados os sujeitos da aprendizagem e os condicionantes
sociais – a escola como instituição, a gestão, o projeto político pedagógico,
as políticas educativas, os fatores sócio-econômicos, a cultura, o tempo
histórico (Patto, 1999).
Muda, portanto, a visão de aluno, e de seu papel
no processo ensino-aprendizagem. As novas concepções apontam para um aluno
que é e deve ser visto como sujeito, não apenas no sentido de ser responsabilizado
por sua aprendizagem, mas no sentido do direito ao conhecimento e ao reconhecimento
de sua subjetividade e inserção cultural.
A Psicologia Social no Brasil, em meados dos anos
70, a partir de uma perspectiva crítica em Psicologia, fundada nos conceitos
do marxismo, trouxe contribuições inegáveis às formas de compreensão do
humano, na medida em que propunha pensarmos o homem nas relações concretas
– não aparentes – com a realidade, o homem social, em oposição ao homem
“natural” da Biologia (Lane e Codo, 1994).
Apresentou importantes conceitos, com base em conhecimentos
que já vinham sendo desenvolvidos em outros contextos, que são hoje referência
para pensarmos a sociedade e os sujeitos que nela circulam:
• a idéia de identidade, como expressão de uma
subjetividade que se constitui nas relações sociais, mediada pela cultura,
em oposição ao conceito tradicional de personalidade, que trazia um pressuposto
naturalizante;
• a idéia de consciência, como processo que se desenvolve nas relações
concretas e supõe reflexão, superação de modos de ver o mundo ideologicamente
conformados, contrapondo-se à alienação que marca as relações capitalistas
de trabalho e existência;
• o conceito de representações sociais, que deu sentido aprofundado à
concepção de homem construído nas relações sociais, na medida em que foca
na dialética homem-mundo a construção dos sentidos sociais e discursos
que circulam na comunicação entre os homens. O mundo real é entendido
como mundo representado, na medida em que os significados da realidade
e da experiência não estão dados a priori, mas construídos a partir da
cultura, das referências dos grupos sociais. Ao mesmo tempo, essa compreensão
dinâmica das representações aponta para a mudança, na medida em que, não
sendo naturais, as representações são mutáveis, cambiáveis e potencialmente
transformadoras. Os estudos de representação são hoje uma interessante
referência para pensarmos a relação do jovem com o mundo do trabalho e
da profissão, na medida em que revelam não somente aquilo que se declara,
mas principalmente as imagens sociais das profissões e do trabalho e os
conflitos presentes nas representações sobre a relação educação-trabalho.
• os estudos sobre preconceito são ainda uma importante contribuição,
porque indicam a forma como valores sociais estão relacionados a visões
hierarquizadas de homem, de cultura e sociedade; de como essas visões,
de caráter eugenista, conformam o modo como compreendemos a nós mesmos
e ao outro, e como determinadas diferenças são socialmente indicadoras
de rebaixamento social e discriminações (cor/etnia, idade, gênero, opção
sexual e outras).
Não restam dúvidas de que essas duas áreas fornecem
significativas ferramentas para que os jovens compreendam seu “lugar”
na sociedade e na cultura, relativizem concepções ideologicamente orientadas,
naturalizações e preconceitos que cercam sua existência.
Outro aspecto importante a salientar refere-se
ao ensino e suas possibilidades. A produção de conhecimentos na área de
Psicologia da Aprendizagem nos mostrou a importância do sujeito no seu
processo de aprendizagem, e da necessidade de construirmos métodos e estratégias
ativos de apreensão e produção de conhecimentos.
Os conteúdos que ensinamos não se desvinculam das
formas como ensinamos, pois estas estão imbricadas nas práticas pedagógicas.
Portanto, ensinar Psicologia implica superar a estratégia expositiva,
na busca de estratégias dialógicas e ativas de construção compartilhada
de conceitos e sentidos.
A Licenciatura em Psicologia: novos desafios
Ao defendermos a volta da Psicologia ao Ensino
Médio regular, um desafio se impõe: pensarmos a retomada e fortalecimento
dos cursos de Licenciatura em Psicologia.
As Diretrizes Curriculares para a Formação em Psicologia,
embora não apresentem impedimentos à oferta das Licenciaturas, organizam
os conhecimentos específicos em ênfases, e essa forma de organização precisa
ser compatibilizada com as atuais Diretrizes Curriculares Nacionais para
a Formação de Professores.
A necessidade de compatibilização entre esses dois
referenciais, se por um lado apresenta-se como um grande desafio, por
outro mostra um potencial formador relevante, já que permite aproximar
o futuro psicólogo e professor de psicologia das questões envolvendo as
políticas educativas, os sistemas, orientações curriculares e outras dimensões
do processo educativo, fundamentais para a compreensão dos processos psicológicos
no contexto educacional/escolar.
Essa é uma tarefa que se impõe no momento, para
que possamos consolidar esse movimento: o estudo das possibilidades curriculares
para a licenciatura em psicologia; a adesão das instituições formadoras
a esse projeto.
Ações das entidades na luta pela Psicologia no Ensino
Médio
É histórica a luta pela presença da Psicologia
como componente curricular obrigatório no Ensino Médio, que nos remete
aos anos 80 e à retomada da democracia no Brasil. Mesmo que de forma flutuante
e distinta nas várias regiões brasileiras, esta luta sempre esteve presente
e gerou conteúdos e pesquisas.
Nos últimos anos, esse movimento ganhou força com
a Associação Brasileira de Ensino de Psicologia – ABEP e o envolvimento
do Conselho Federal de Psicologia – CFP, que junto com outras entidades
do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira – FENPB têm assumido
papel importante na condução do tema. Participação importante também tem
sido realizada por Conselhos Regionais, Sindicatos dos Psicólogos e por
professores e alunos nos diferentes estados, como é o caso de São Paulo,
que vem atuando fortemente nesta luta.
As entidades têm mantido constante diálogo com
as instâncias políticas e representativas, buscando consolidar o projeto
da nossa Psicologia, como anunciado em texto do Sistema Conselhos sobre
o ano da educação, ‘respaldada nos princípios do compromisso social, dos
direitos humanos e do respeito à diversidade enquanto fundamento para
uma efetiva inclusão social’.
O grande desafio que se impõe a todos nós, psicólogos,
professores e estudantes de psicologia, é fortalecer essa luta, mostrar
nossa legitimidade e relevância no contexto da formação dos adolescentes
e jovens brasileiros, narrar nossas experiências de formação nesta etapa
da escolaridade e aproximarmo-nos, nas distintas regiões e realidades
brasileiras, por meio dessas experiências.
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